A rede lotérica da CAIXA Econômica Federal voltou a registrar queda no número de unidades em operação no Brasil. Segundo dados divulgados no balanço financeiro do banco referente ao primeiro trimestre de 2026, o país encerrou o período com 12.966 lotéricas ativas — uma redução de 149 estabelecimentos em comparação ao mesmo trimestre de 2025. O recuo também aparece na análise trimestral. No fim de 2025, a rede contava com 13.002 unidades, o que representa fechamento líquido de 36 pontos de atendimento apenas nos primeiros três meses deste ano.
O movimento preocupa empresários e entidades do setor, especialmente porque ocorre em um momento de forte expansão das operações digitais da própria CAIXA e de transformação do mercado de apostas e jogos regulamentados no Brasil. Mesmo com lucro líquido recorrente de R$ 3,5 bilhões no trimestre, crescimento de 25,4% em relação ao quarto trimestre de 2025, a instituição financeira vê sua principal rede física perder força gradualmente.
As lotéricas seguem desempenhando papel estratégico para milhões de brasileiros. Somente entre janeiro e março de 2026, os estabelecimentos processaram cerca de 405 milhões de transações bancárias e financeiras, consolidando-se como o segundo maior canal de atendimento da CAIXA, atrás apenas dos aplicativos e serviços digitais. Apesar disso, o volume operacional também caiu. No primeiro trimestre de 2025, haviam sido registradas 467 milhões de transações nas lotéricas. A retração anual chegou a 13,4%. Enquanto isso, os canais digitais continuam avançando rapidamente. As transações via aplicativos saltaram de 11,58 bilhões para 14,31 bilhões em apenas um ano, crescimento de 23%.
Outro dado que chama atenção é o número de permissões lotéricas revogadas pela CAIXA em 2026. Entre janeiro e abril, já foram canceladas 50 permissões para operação de loterias federais. Foram 23 revogações em janeiro, 11 em fevereiro, 10 em março e mais 6 em abril. Em todo o ano de 2025, o total havia sido de 162 revogações. Segundo representantes do setor, o principal motivo por trás do fechamento das unidades é o alto nível de endividamento enfrentado pelos permissionários.
O presidente da Federação Brasileira de Empresas Lotéricas (Febralot), Ricardo Amado Costa, afirmou que a queda na receita das unidades, combinada com a concorrência digital e a falta de novos produtos, tornou muitas operações inviáveis financeiramente. De acordo com o dirigente, a desvalorização das lotéricas chegou a um ponto crítico, em que muitas vezes o valor da dívida supera o valor de mercado da própria permissão.
Além das revogações compulsórias previstas na Circular CAIXA nº 1084/2025, também aumentaram os casos de devolução voluntária das permissões por parte dos empresários. Segundo o setor, muitas unidades ainda operam com equipamentos considerados ultrapassados, instalados há mais de duas décadas, enquanto o mercado financeiro e de apostas avança rapidamente para soluções digitais integradas.
O debate ganha ainda mais relevância após a regulamentação das apostas esportivas no Brasil. Empresários defendem que as lotéricas sejam incluídas na distribuição dos novos produtos autorizados pelo governo federal, ampliando receitas e criando novas oportunidades para a rede física.
Para Ricardo Amado Costa, a abertura do balcão lotérico para todos os produtos legalizados e a inclusão digital plena dos permissionários são fundamentais para evitar o enfraquecimento definitivo da rede.
Ele também criticou modelos anteriores de operação de produtos lotéricos, como a LOTEX, apontando falhas comerciais e estratégicas na implementação.
Apesar da retração da rede lotérica, a CAIXA mantém uma das maiores estruturas de atendimento do sistema financeiro nacional. O banco afirma estar presente em mais de 97% dos municípios brasileiros, somando cerca de 24,6 mil pontos de atendimento.
A estrutura inclui aproximadamente 3,9 mil agências e postos convencionais, além de 20,7 mil correspondentes bancários, categoria que engloba lotéricas e unidades CAIXA Aqui. A instituição também opera com agências móveis, incluindo caminhões, barcos e contêineres adaptados para atendimento em regiões remotas.
O desafio, agora, será equilibrar o avanço acelerado dos canais digitais com a sobrevivência da rede física lotérica, historicamente responsável por boa parte da capilaridade da CAIXA no Brasil.





